Processo de restauração do Mercado Público Central

Acompanhando a trajetória do Mercado Público de Porto Alegre, é recorrente observarmos pequenas reformas no prédio, sempre com a função de mantê-lo funcionando. No entanto, ao final da década de 1980, percebeu-se que o estado físico em que o prédio se encontrava era de total precariedade. Já não adiantavam pequenos retoques, fazia-se necessária uma reforma que abarcasse todo o Mercado Público. Entre os problemas, podemos citar infiltrações nas paredes, entupimentos na rede de esgoto, risco de explosão devido ao acúmulo de gás nas tubulações, problemas de defasagem de energia elétrica, problemas na coleta de lixo (que era realizada em horários diversos), a falta de uma central telefônica e, por fim, a própria estrutura do prédio.

A idéia de restauração consolidou-se em 1989, quando foi realizado um seminário para discutir e examinar a situação do Mercado Público. Esta ação pretendia definir quem e como restaurar o prédio. Na década de 1990 foi elaborado e realizado o Projeto de Restauração do Prédio do Mercado, que visava resgatar a imagem deste importante patrimônio cultural com o objetivo de otimizar as suas funções de comércio, cultura, lazer, sociabilidade e religiosidade na capital gaúcha.

Para realização de tamanho projeto, formou-se uma equipe multidisciplinar, com o intuito de promover um estudo sobre o Mercado Público antes de começar a reforma. Acreditava-se que as modificações a serem feitas no prédio deveriam estar de acordo com as características e funções sociais, arquitetônicas e econômicas que o Mercado adquiriu ao longo do tempo. Importante ressaltar a preocupação que a equipe de restauro teve com a parte “humana” do Mercado, em estudar as pessoas que vivem ou viveram parte de sua vida naquele espaço. Foram realizadas importantes pesquisas durante o projeto, como forma de subsidiar a definição de ações que definiriam um novo perfil ao prédio.

As obras de recuperação do Mercado iniciaram em setembro de 1991, com a fixação de paredes e a reforma do telhado de uma área no andar superior, entre a Praça XV e a Borges de Medeiros. Já no início de 1992, a equipe do restauro deu início às obras que visavam à recuperação do prédio e redimensionamento do seu uso, buscando um melhor aproveitamento do espaço.

O segundo pavimento também recebeu modificações. Está dedicado a restaurantes, lojas de artigos especializados e serviços diversos; conta com três praças internas para alimentação e eventos. A ligação entre os dois pavimentos hoje se faz através de escadas rolantes, dois elevadores e quatro escadas fixas. A integração entre os dois pisos foi um dos objetivos a ser alcançado com a restauração do prédio.

O Mercado Público Central renovado na sua imagem original, com o complemento e conforto proporcionado pela nova cobertura de estrutura metálica cobrindo o pátio central, dignificou um dos mais belos cartões postais da capital gaúcha. De 1990 a 1997, o Mercado passou pela mais importante intervenção em sua estrutura desde sua edificação. O Mercado Público ficou com uma imagem renovada perceptível ao público freqüentador.

O Bará do Mercado

O Mercado Público não é um espaço restrito ao comércio, também tem grande relevância para as religiões de matriz africana. Essa importância explica-se por acreditarem que ao centro do edifício está assentado o Orixá Bará, que, dentro do panteão africano, é a entidade que abre os caminhos, o guardião das casas e cidades e representa o trabalho e a fartura. “Assentar” significa fixar o orixá em determinado objeto através de práticas rituais específicas. Este objeto – chamado pelos praticantes da religião de ocutá - foi enterrado no chão do Mercado, exatamente no seu centro, significando que o orixá está ali, podendo ser visitado, cultuado e receber oferendas dos adeptos da religião.

Há duas versões para a origem do assentamento, a primeira diz que o Bará foi assentado no centro do Mercado pelos negros que construíram o prédio, sendo esta uma prática comum para atrair a prosperidade comercial. A outra versão atribui ao Príncipe Custódio a iniciativa de assentar o Bará no início do século XX. Não há consenso entre os praticantes de religião e estudiosos sobre o assunto. Seja como for, ambas as versões acenam, por um lado, para a importância original do Mercado Público, enquanto território de negros, e para a ocupação do espaço com o passar dos anos pelos portugueses e membros de outras etnias; e, por outro lado, para a crença que vigora no meio afro-religioso gaúcho, segundo a qual, a longevidade do Mercado Público e sua manutenção centenária, apesar dos incêndios nele ocorridos, devem-se ao Bará que não somente protege o espaço físico, seus trabalhadores e transeuntes, mas também é a fonte de axé e proteção para os seus fiéis e crentes.

No ritual de iniciação de um indivíduo na religião de matriz africana, o primeiro local a ser visitado é Mercado Público, devido à importância que o Bará tem para o iniciado, já que ele abre os caminhos e também porque significa o início de todas as coisas. Este ritual é chamado de passeio, e é presente em todas as religiões de matriz africana no Rio Grande do Sul. As floras são também atrativos para que os afro-religiosos freqüentem o Mercado Público. Flora é um estabelecimento especializado em comerciar produtos e artigos afro-religiosos. No Mercado há quadro delas, cada uma localizada nas entradas do Mercado, sempre à esquerda

Além da prática específica do “passeio” realizado no Mercado, diariamente várias pessoas vêm visitá-lo para receber a força mística do “axé” que está no seu centro. É no Mercado Público também que, geralmente, os pais-de-santo compram os produtos necessários para a realização dos rituais. A própria compra desses alimentos reveste-se de importância, pois ao se comprar no Mercado está se levando junto com os alimentos o “axé”, ou força mística, do Bará que está assentado no prédio. Por fim, o “axé” do Mercado é o mais forte da cidade, já que é o mais antigo.


Mercado Público: Patrimônio da Cidade de Porto Alegre
O Mercado Público foi construído entre 1864 e 1969, durante o Império brasileiro. Na época era um prédio moderno e imponente. Precursor de novos tempos, tinha como função original centralizar, organizar e facilitar a fiscalização das relações comerciais na cidade; relações que se desenvolveram principalmente através da troca com as colônias alemãs e italianas.

Ao longo do tempo surgiram diversas formas de comércio e o Mercado, que um dia fora pioneiro, acompanhou as mudanças. Porém, na segunda metade do século XX, o Mercado ficou desgastado e envelheceu. Quando sofreu ameaça de demolição, a cidade se mobilizou em sua defesa.

Nesta mostra, o Memorial do Mercado busca resgatar o processo que levou ao tombamento do Mercado Público como patrimônio da cidade. Faz referência aos aspectos que lhe conferem identidade e que no imaginário social prevaleceram, abrindo caminho a sua preservação e tombamento em 1979.

Realização
Secretaria Municipal da Cultura / Prefeitura Municipal de Porto Alegre

Pesquisa e Texto
Alex Vidal

Texto da Exposição
Alex Vidal, Simone Derosso, Luiz Antonio Felkl

Assessoria Técnica
Ana Margarida Xavier / EPAHC

Projeto Gráfico e Artefinalização
Ângela Fayer

Impressão e Montagem
Odone Visintainer

Equipe do CPH
Luiz Antonio Felkl, Simone Derosso, José Augusto Zorzi, Guilherme Farias, Anderson Bittencourt Araújo, Franco Bauer

Equipe do Memorial do Mercado
Juliana Nunes, Tainá Nunes da Silva, Pedro Augusto Girardi Alves, Ivana Cassafuz Guedes